Autoconhecimento e Negritude

Onyankopon Adom nti biribiara beye yie – Símbolo de esperança, providência e fé. Deus cuida de nós, nos guia e nos protege.

O processo de autoconhecimento completo, é além de nos conhecer, saber quem somos em intimidade, luz e sombra, nos aceitar. Logo, a aceitação de quem somos acaba sendo a chave para aprofundar no nosso autoconhecimento. Um processo de volta pra casa, voltar para si mesmo, acima de tudo gostar de si mesmo.

O racismo, o epstemicídio sofrido pela população negra, e os anos de escravização, provoca em nós negros uma profunda negação de quem somos. O racismo sistemático cria a ideia de que nesse mundo nós não podemos ser nada de bom. E o pior, o não querer ser negro e o desejo intenso de ser branco para tentar ser humanizado.

Bell hooks em seus livros escreve sobre o racismo internalizado em crianças nos EUA. O racismo internalizado que faz o próprio negro estar submisso a branquitude, leva o próprio negro a crer que o branco é tudo de bom e merece tudo de melhor que pode ter nesse mundo. Hooks chega a desabafar dizendo que isso era melhor na época da Segregação, pois o povo negro tinha maior controle sobre o que suas crianças estavam aprendendo na escola, como elas estavam se vendo. O racismo internalizado leva a condição descrita por Neusa Santos Souza em seu livro Tornar-se Negro, onde pessoas brancas “criam personagens brancos” para sobreviver em sociedade.

O racismo é tão cruel e presente na infância e adolescência negra, que o sujeito começo um processo de ilusão onde ele se vê e se entende como branco e não como negro. Passa a vida supondo que o branco é superior ao negro e, por não abrir mão da superioridade, supõe também em um processo psíquico complexo que o próprio é branco. Rejeita tudo que é do negro, e tenta a todo custo parecer branco porque por achar o negro tudo de ruim, tem vergonha de ser, parecer e ser visto como negro.

O “Tornar-se Negro” relatado por Neusa Santos é nosso retorno para casa. É desmistificar todo racismo internalizado. É sair da condição de submissão ao branco. Parar de achar que o branco é bom em tudo e que tudo do branco é bom.

É reconhecer nossas potencialidades enquanto pessoas pretas e externá-las para mundo.

Ao se entender como branco, por causa do personagem, boa parte da população negra inconscientemente está desejando tudo de melhor, de sucesso, de próspero, de alegre, para o branco. E não para si e para os próprios irmãos negros.

Aqui está a chave interna para a mudança de consciência que vira o jogo contra o racismo. Nos conhecer, nos aceitar, conhecer o próprio personagem, e lutar contra ele. Lutar para querer ser negro, até mesmo porque negro é lindo, negro é festa, negro é música, teatro, cultura, negro é vida.

Assim eu descobri que o autoconhecimento e aceitação é nossa maior arma interna contra o racismo.