Semana Santa: conflitos internos, morte, ressurreição

A importância do momento de recolhimento para permitir deixar ir o que precisa ir.

Sempre falo que a quaresma é um período muito difícil para mim (e para todo católico, é claro). É o momento que representa a passagem de Jesus pelo deserto, é também o momento que me permito adentrar nos desertos de mim mesma.

Minha quaresma não é de álcool, nem de refrigerante.. na minha quaresma eu rezo e permito que nesse período situações externas me aflorem questões de pai e mãe mal resolvidas. Nesse ano foi uma questão extremamente difícil que eu vivi com os dois, a frustração e não entendimento de uma busca por amor exclusivo. Enquanto com a minha mãe minha frase interna era “eu sou especial demais para você está fazendo isso comigo”, com o meu pai a frase era “pra você está fazendo isso comigo, eu só posso ser um lixo”.

Depois de muitos dias de sofrimento, culpa, crises de ansiedade, vitimização e projeções (sim, eu estava projetando esse meu conflito interno em alguém), eis que começo a ver uma luz no fim do túnel: os primeiros grandes insights começaram a chegar no sábado, um dia antes do Domingo de Ramos que marca o início da semana santa.

Domingo de Ramos:  Autorresponsabilidade.

O dia em que começou a cair a ficha que não tinha nada de que meus pais só estavam vivendo e sendo eles mesmo, eu que fiz um embrolho por querer mais amor do que precisava.

Segunda-feira santa: agir com resiliência diante dos sofrimentos da frustração. 

Dificuldade de lidar com a sensação de abandono da infância. 

Ruptura brusca das construções do ego na infância: a percepção de não ser mais tão especial quanto gostaria.

Terça-feira santa: agir com resiliência diante do sofrimento físico.

Na terça eu adoeci. Fiquei com diarréia, dor no corpo e sem conseguir comer. Frequentemente quando me proponho a abrir mão de questões de infância acontece isso. No mundo espiritual chamamos de detox, é quando o corpo também está expulsando o que não serve mais de dentro da gente.

O livro de Retiro Quaresmal da Edição Loyola hoje trouxe a seguinte reflexão acerca da passagem “Um de nós há de me entregar!” (Jo 13,21): “Consideremos se há em nós gestos de traição e de busca dos nossos interesses ao invés dos interesses do Reino.”

E eu trago aqui uma outra reflexão: até que ponto meu estou abrindo mão do meu prazer, do meu privilégio, do meu conforto, da minha falsa sensação de superioridade e poder sobre o outro, para construir um bem comum ou para agir em prol do bem estar da minha família?

Quarta-feira santa: manter-se fiel a si mesmo para não cair nos medos infundados do personagem.

Hoje me senti bem, as cólicas estão fracas e o intestino está se recuperando. Estudei e trabalhei o dia todo e consegui bordar nas horas vagas. Hoje percebo como são valiosos os momentos de quebra do ego, que expõem os desejos inconscientes e infantis do personagem. E como é bom poder abrir mão disso para me encontrar com a minha verdade. Com quantos ódios, vinganças, medos estamos fortemente identificados quando na verdade eles não fazem a menor diferença na nossa vida? Vai perder o que, um bocado de dinheiro? Orgulho? Vai sair perdendo? Vai se sentir inferior? Por que a gente ainda cai tanto nisso?

Reflexão da quinta-feira santa: odiar como uma escolha burra.

Ontem uma pessoa fez algo que eu considerei muito desrespeitoso comigo e não teve consideração com os sentimentos da minha família, de certa forma. A situação me levava pra uma situação de ganância por dinheiro (brancos querendo não só o dinheiro deles mas surrupiar o nosso também). Era uma mulher branca e eu não costumo relevar coisas de pessoas brancas quando eu entendo que é uma suposição de superioridade racial (um dia vou fazer uma postagem aqui sobre a principal qualidade de racismo do Brasil, que não é explícito, não é o que chama de macaco. A principal qualidade de racismo do Brasil é o da submissão ao branco, mas é uma longa história, e é o motivo pelo qual eu não relevo coisas de pessoas brancas, na verdade, eu só não me submeto que é o que o sistema e o senso comum obrigam o negro a fazer).

Pois bem, quaresma para uma católica como eu já significa muitas coisas pra lidar. Acima de tudo coisas pessoais, que realmente importam, que realmente falam sobre se tornar alguém melhor (não pro branco rs). Eu entendi aqui que eu não posso me distrair por causa de desrespeito de uma raça que nunca me respeitou, tão pouco por causa de mesquinharia de dinheiro. Resolvi ignorar (o que não é do feitio de Larissa) e seguir focada na resolução das minhas questões pessoais.

Me caiu uma ficha também de como são infelizes as pessoas que se dedicam a ferir os outros. Não pelo fato em si, mas porque estão perdendo um valioso tempo de resolver as próprias questões para importunar pessoas que no final vão seguir a vida e só um vai ficar para trás nessa história aqui.

Sexta-feira santa: deixar morrer os padrões que não servem mais.

De ontem pra hoje tive um salto de insights e esclarecimentos dos orgulhos que preciso deixar para trás. Alguns tão enraizados que nem sei como vou fazer, mas já consigo vislumbrá-los, pelo menos. E como diz a primeira lei do esotérico, tem que partir de mim a decisão de deixar para trás, e esse passo eu estou dando hoje.

Um parênteses para Continuar a história anterior: hoje acordei com uma mensagem daquela mulher branca desrespeitosa, sim, tentando uma aproximação (caramba como são as pessoas né, elas sabem muito bem o que estão fazendo, o que estão causando e continuam). Mas como eu disse, preciso cuidar de mim e das minhas questões, não dá pra ficar agora batendo palma pra maluco. Não respondi, não cedi às distrações do ego, e sigo firme tentando me resolver internamente.

Quinta-feira santa: um dia de vigília.

Na quinta geralmente nós católicos estamos com o peito apertado e triste, pois estamos esperando a ressurreição do Senhor. Estava um lindo dia de sol e a vida seguia normal. Percebo como a cada crucificação de pequenos “Cristos” nas favelas também não causa alarde. Me lembrei que o Rio de Janeiro ano passado foi palco de uma das chacinas mais letais do país e no outro dia tudo seguiu normal. A comunidade quase não teve forças nem sequer para pedir justiça. Um dia útil normal: malhei, ri bastante com as meninas, trabalhei, a noite orei em vigília, me recolhi e dormi.

Domingo de Páscoa

De longe o melhor dia da quaresma, é o dia que ela termina rs

O peito acorda renovado sem ter acontecido nada externo para justificar isso.

Acordei com a frase “Viver é um rasgar-se remendar-se” do Guimarães Rosa na cabeça. Quando acaba a quaresma eu fico só gratidão pelo processo vivido. Daqui pra frente é mergulhar mais no autoconhecimento do que me foi revelado e fazer escolhas conscientes.

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